Prof. Dr. Latuf Isaias Mucci
(Pós-doutor em Letras Clássica e Vernáculas/USP)
“Le texte que vous écrivez doit me donner la preuve qu’il me désire. Cette preuve existe: c’est l’écriture. L’écriture est ceci: la science des jouissances du langage, son kamasutra (de cette science, il n’y a qu’un trait: l’écriture elle même)”[1]
(Roland Barthes, Le plaisir du texte, p. 13-14).
Do latim textus, como no radical de “têxtil”, “texto” designa todo agrupamento de palavras. Em um sentido específico, certos teóricos do fim do século XX fizeram do “texto” o lugar de manifestação da linguagem e do sentido e tenderam a substituir, elaborando “teorias do texto”, o texto assim entendido à literatura.
Primeiramente, a idéia de “texto” está ligada, por analogia com a trama de um tecido, à de trama de uma narrativa. Um fenômeno, derivado da difusão cada vez mais ampla do escrito impresso, radica na busca pelas relações entre textos, no seio de uma representação do mundo como um universo de linguagem, formando um vasto “texto”, de que cada obra, cada texto singular seria uma parte. Esse ponto de vista, desenvolvido no século XX, funda-se numa concepção de linguagem e da literatura como manifestação de estruturas gerais, que atingiu elevado grau de teorização e tomou uma orientação mais formalista com a semiologia de Roland Barthes e Julia Kristeva, originada do formalismo russo. Esses semiólogos concebem cada obra como o fruto de enxertos e de diálogo com outros textos. Tal visão da intertextualidade supõe uma “teoria do texto”, que vê no texto não a realização escrita de uma obra, mas um vasto processo de construção do sentido.
Paradoxalmente, a idéia de que um texto possa ser um conjunto fechado, isto é, que traz em si o todo de sua significação, que pode tornar-se independente de sua situação de enunciação, articula-se com a idéia de que o texto se constrói na relação complexa que trava com outros textos, de que exibe os traços. Daí, resulta a tensão entre os modos de abordagem que ou priorizam o texto ou que o inscrevem no contexto. Mas essa tensão não é senão a manifestação visível de uma ambivalência mais profunda, que compromete os próprios substratos da linguagem, portanto, da literatura.
A idéia de texto implica que se leve em conta, em seu conjunto, a materialidade do enunciado. A publicação, oral ou escrita, de um mesmo enunciado constitui um só e mesmo texto ou se trata de um mesmo enunciado em dois textos? Evidentemente que, no caso do teatro, o texto escrito e lido e a peça representada e vista não estão estruturados com os mesmos conjuntos de signos, podendo, por conseguinte, produzir efeitos de sentidos e efeitos estéticos sensivelmente diferentes. Mesmo na edição de uma obra unicamente verbal, outros elementos vêem inserir-se no enunciado primeiro: a paginação, a tipografia, mas também elementos de prefácio ou quarta-capa etc.
Atualmente, a crítica leva em consideração tais signos, designando-os como “peritexto”, e a história cultural estuda-os cada vez mais. Adveem duas conseqüências principais: primeiramente, o texto é um enunciado tomado em sua materialidade, devendo a textualidade ser abordada em todas as suas dimensões de significante; em segundo lugar, o texto, como todo significante, é contingente e representa a estabilização momentânea de um discurso.
A idéia de fechamento do texto torna-se, portanto, dificilmente operatória, e, face à sacralização que tal idéia implica, faz-se mister uma reflexão sobre a relatividade dos textos. O uso cada vez mais freqüente e expansivo de meios de duplicação, transmissão e transformação dos textos (o tratamento informático e a Internet), incluindo-se a prática literária (literatura on line, literatura interativa) confirma o jogo imponderável do texto. No entanto, presentes desde sempre na transmissão oral, manuscrita e impressa, todas as formas passíveis de variações textuais estruturam, em sua seleção, em seu recorte e no modo de apresentação de um texto, significações, na medida em que a relatividade dos textos leva, necessariamente, a uma reflexão sobre a recepção e a hermenêutica.
Referências bibliográficas
BARTHES, Roland. Texte. In: Encyclopedia universalis. Paris: Seuil, 1973.
------------------------. Le plaisir du texte. Paris: Seuil, 1973.
KRISTEVA, Julia. Sémiotiké. Paris: Seuil, 1969..
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[1] “O texto que você escreve deve dar-me a prova de que ele me deseja. Esta prova existe: é a escritura. A escritura é isto: a ciência dos gozos da linguagem, seu kamasutra (dessa escritura só há um traço: a própria escritura)” (Tradução nossa).
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ResponderExcluirEdinília Cruz