quinta-feira, 11 de março de 2010

TEXTO O3: UMA LEITURA DE FORMAÇÃO DO LEITOR NA HISTÓRIA DA

Texto de Juliana Passos
Mestre em Estudos Literários na UFPR.
Publicação na REVISTA X – vol. 2 (2006)

O texto trata da questão da leitura no âmbito da história considerando, sobretudo, as relações entre escola e leitura e tendo como ponto de partida para esta reflexão as opiniões de Platão e Schopenhauer, passando pela visão de leitor de reconhecidos autores brasileiros (e, portanto, considerados bons leitores).

Segundo a autora, no princípio de nossa cultura Ocidental, o célebre pensador Platão rejeitava o ato da leitura. Por sua praticidade em acessar textos sem contar com a capacidade memorização, Platão considerava a prática da leitura uma barreira entre o homem e o conhecimento. Séculos depois, o ato de ler seria condenado também pelo filósofo alemão Arthur Schopenhauer, com base na crença de que, durante o processo da leitura, assumiríamos as posições de outra pessoa (provavelmente o autor) em detrimento de nossas próprias idéias. Ambos pensadores rejeitam o mesmo processo de absorção de textos que exclui a possibilidade de pensar por conta própria. “Lamentavelmente, as concepções sobre o ensino da literatura vigentes na escola brasileira talvez dêem razão a dois filósofos tão amargos e insatisfeitos com os resultados da aprendizagem da escrita e da habilidade de ler”(ZILBERMAN, 2002, p. 16).

No século XIX e inicio do século XX, a leitura em voz alta formava o estudante no uso da língua, em especial na expressão oral, respondendo às necessidades da Retórica, ainda dominante na escola. A partir de então, a leitura também é uma passagem para a literatura se pensarmos na escola a partir do século XX, quando se inicia o modelo consagrado de ensino da língua mãe que parte da leitura dos autores consagrados da língua, e segundo o qual a leitura dos bons autores aprimora o gosto literário e resulta em um bom uso da língua escrita e oral.

Esta proposta de ensino foi regulamentada na década de 30, quando se estabelecem os
programas oficiais de Português para o ensino primário e secundário, que estabelecem que todo o ensino da língua deve partir da leitura, considerando as vantagens que esta pode trazer em relação ao uso da linguagem.

Porém a leitura e a literatura, de acordo com Regina Zilberman, não se constituíram como disciplinas autônomas, mas sendo sim, sempre consideradas como instrumentos. A leitura constitui elemento fundamental na estruturação do ensino porque considera-se que esta forma sua base: está no começo da aprendizagem e conduz as outras etapas do conhecimento e é com os olhos nestas “outras etapas” que é baseado o ensino da leitura. A literatura, na mesma direção, também não é explorada com sentido nela mesma, mas com o objetivo de desenvolver as habilidades de leitura. Literatura e leitura nunca deixaram de ser propedêuticas, preparando para o melhor, para o que vem depois.

A partir dos anos 50, duas concepções básicas do ensino se mantiveram:

a) A noção de que a leitura forma a base do aprendizado da língua materna. A autora cita como exemplo os livros didáticos de FARACO & MOURA, que dividem os temas a estudar em unidades, tomando o texto literário como ponto de partida para todo o resto.
b) A noção de que os textos lidos são apenas uma passagem para um outro estágio, superior, situado fora do livro escolhido pela escola. Como exemplo, é citada a consagrada série Para gostar de ler, que em sua apresentação afirma “não ter intenção de ensinar coisa alguma”, e não deixa de confessar que “as crônicas serão apenas o começo (...) e que você irá encontrando sozinho, pela vida afora na leitura dos bons livros (...)”.

Estas noções mostram que a leitura proposta pela escola só se justifica, se exibir um resultado que está além dela. Sem a exposição de finalidade situada cronologicamente e profissionalmente mais adiante, que dê visibilidade e sentido ao trabalho com textos escritos, o ensino da leitura ou a própria leitura não se sustentam.

Eis a utopia da leitura, utopia, no entanto, que a desfigura, porque promete uma felicidade que está além dela, mas pela qual não se pode responsabilizar. (ZILBERMAN, 2002, p. 21-22).

Perguntando-se sobre a expectativa que os leitores nutrem em relação à leitura, Regina Zilberman analisou depoimentos de famosos escritores brasileiros sobre suas leituras dos tempos escolares e verificou que suas atitudes em relação aos livros não eram as esperadas pela escola, assim como a escola não lhes oferecia o modelo desejado de aproximação aos textos literários.

Drummond, Bilac, Lima Barreto, Jorge Amado e Monteiro Lobato relatam experiências de pessoas que tomaram gosto pela leitura, apesar da escola, que, ao contrário do prazeroso mundo da imaginação encontrado nos livros, é representada por um universo de desconforto e desajuste. Raramente a escola e seus aparatos provocam lembranças aprazíveis da leitura, pois suas atividades provocam tédio, e são frenquentemente vivenciadas como obrigações, controle ou aprisionamento.

A leitura proposta pela escola não é incorporada ao universo, ao exterior dos livros, à vida dos jovens leitores, não explorando o prazer e a imaginação, não provocando a reflexão e induzindo o leitor a, como advertira Schopenhauer, ocupar-se efetivamente do pensamento do outro.

A leitura implica aprendizagem, quando existe um espaço de diálogo entre leitor e texto, aceito enquanto alteridade e perante o qual o leitor assume posições, perdendo e ganhando sua identidade no confronto com o texto e não ficando impássivel frente a ele. Infelizmente, a tragetória da leitura no ensino da língua portuguesa mostra que instituições como a escola não descobriram como trabalhar com as regras desse processo, do “jogo entre identidadealteridade”
(ZILBERMAN, 2002, p. 29). “Por isso, talvez seja o caso de transformar o 'de dentro' da sala de aula em 'de fora' da leitura, com a escola aprendendo com literatura, em vez de ensiná-la” (ZILBERMAN, 2002, p. 29).

REFERÊNCIAS

PEREIRA, V.W. (orgs.) (2002). Aprendizado da leitura – Ciências e literatura no fio da
história. Porto Alegre: Edipucrs.

Um comentário:

  1. O processo de ensino e aprendizagem de leitura e escrita passou por diversas transformações para se adequar aos novos tempos e à demanda desse novo público. O ato de ler e formar leitores é um processo de interação em que histórias de vidas, contextos de comunicação, propósitos e expectativas, épocas, espaços e assuntos podem ser muitíssimo diferentes. Por isso mesmo, a leitura interessa a tantas teorias e ciências: psicologia, psicanálise, pedagogia, sociologia, teoria do conhecimento, teoria literária, teoria da comunicação, análise do discurso, etc.


    Edinília Cruz

    ResponderExcluir